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A importância do carácter
O Kung-fu da escola Wudang, uma localidade que fica no centro da China, é considerada uma escola berço das artes marciais chinesas.
Numa entrevista com um dos mestres responsáveis da escola, este disse que durante as primeiras semanas tentavam conhecer o carácter do aluno, sendo este critério essencial para aceitar a sua inscrição na escola. E o mestre justificava que os alunos iriam aprender conhecimentos poderosos, pelo que se tivessem mau carácter só os iriam utilizar para fazer sofrer os outros.
Este excerto despertou-me uma das dúvidas que sempre me apoquentaram: será que não deveria existir uma selecção deste tipo nos dojo?
Se é exigido a um cidadão a obrigatoriedade de pedir autorização e licença para possuir e transportar armas (como já foi discutido noutro tópico), também não deveria existir obrigatoriedade de seleccionar as pessoas que vão aprender técnicas tão letais como uma arma?
Participação de Marco Ferreira em: 26-10-2006
Respostas a esta Participação
Aliás, citações como essas merecerão certamente uma severa punição no tribunal marcial da AAS.
Resposta de António Galrinho em: 11-11-2006
Não te preocupes Marco, atendendo à citação, consideramos isso como um "Interlúdio Cómico".
Resposta de Eduardo Tavares em: 10-11-2006
Eu sei que tenho o virus do seguidismo, sendo um anacéfalo critico, mas não resisti a mais uma citação depois do que o Miguel aqui escreveu:
"Se os militares devem ser admitidos ??? SÓ os militares e agentes das outras forças de segurança deviam ser admitidos !!! O Aikido é excessivamente perigoso para ser ensinado à população civil !!!
Resposta de Miguel Sendim em: 18-11-2005"
Resposta de Marco Ferreira em: 10-11-2006
Sou fruto do positivismo do séc.XX…
E será que dura, dura, dura, dura, dura, dura, dura, dura, dura, dura, dura, dura, dura, dura, dura,…?
Resposta de Marco Ferreira em: 01-11-2006
Este Marco Ferreira trabalha com pilhas Duracell...

Definições, conceitos, significados, princípios, finalidades, etc...

É evidente que têm algum interesse. Mas ninguém precisa perder muito tempo com saber o que é uma Arte Marcial. Vai ao dicionário que está lá a resposta...(a do dicionário). Ou à enciclopédia...(a da enciclopédia).

Mas parece que não é disso que aqui se trata. Aparentemente, trata-se de saber o que significa "realmente" Arte Marcial, ou Wushu, ou Budo. Não apenas qual a etimologia da palavra mas o que Deus-Nosso-Senhor queria dizer com isso quando inventou essas palavras...

A mesma coisa relativamente ao Aikido. O que é...? O que não é...? Todos nós sabemos...e não sabemos...

Ora aquilo que eu quero dizer com isto é que o problema não está em saber o que os conceitos significam, mas antes em saber se pode de facto existir adequação entre as palavras que utilizamos para nos referirmos às coisas, e as próprias coisas...

Aparentemente, esse processo, que de alguma forma tenta criar nas nossas mentes uma representação de entidades, estados, conceitos, que lhe são exteriores, é na verdade muito problemático, que para a filosofia moderna, quer mesmo para a ciência. Parece que estamos condenados a aceder à realidade por aproximações... E não precisavamos sequer da filosofia e da ciência para nos dizer isso. Talvez apenas o bom senso já para aí apontasse.

Para além disso, pergunto ainda; será que é mesmo das respostas que se está à procura?
Resposta de Eduardo Tavares em: 31-10-2006
Ora aqui está alguém que teve a ousadia de explicar o termo arte antes do marcial. Efectivamente, talvez “arte” esteja para “marcial” como o Yin está para o Yang…

(Não deixa de ser curioso que o termo em chinês mais próximo do conceito de arte marcial é Wushu, em que o conceito de Wu significa não lutar, não combater…)
Resposta de Marco Ferreira em: 31-10-2006
com a devida reserva inerente à tradução "arte marcial", eu considero o aikido, uma Arte Marcial. (quando limitamos o aikido à sequenciação e sistematização de úm conjunto definido de técnicas).

em sentido mais lato, não encaixo o aikido em "arte marcial", nem tampouco em "arte". Se o Aikido é uma forma nova de usar, gerir e conduzir o Ki, então o Aikido é um caminho, um estudo transversal a cada nossa acção, movimento ou pensamento.

Mais ou menos como o Kung-Fu. Kung-Fu não é uma "arte marcial", é antes um conceito para o qual inexiste tradução para português. Kung-Fu é o estado de uma pessoa, é a sua paz consigo próprio e com os outros e o que o rodeia, é o seu comportamento... não sei, não sei explicar.

Por exemplo, eu posso não saber nada de Kung-Fu(sensus strictu) e um chinês dizer-me: "tens um bom Kung-Fu", ou "tens um mau Kung-Fu"

cada um treinará como entender, claro. esse é o apelo secreto à criatividade da "arte". sendo marcial, não desapareceu o que é substancial - "arte".
Resposta de Miguel Tiago em: 31-10-2006
António,
De acordo. Essa abordagem já toca no sentido pragmático que é necessário existir, o que torna a questão que coloquei pertinente mas meramente académica.
Contudo será necessário algum cuidado na interpretação de “fazer a prática como entender”: é que realmente o Aikido tem pilares e princípios e quem não praticar com base nesses pressupostos não está a praticar Aikido. Que a forma seja interpretada é uma coisa mas o conteúdo tem de ser o mesmo, penso eu de que...

Miguel,
Colocas uma boa questão. E confesso que, após esta maratona discursiva, não me repugna nada considerar o Aikido uma arte marcial.
Resposta de Marco Ferreira em: 31-10-2006
Miguel,

Cada um de nós é um ser livre e pensante. Pode escolher fazer a prática como entender e moldar-lhe a filosofia. Assim entendo eu. Mesmo assim, os pilares do Aikido manter-se-ão sólidos.

Marco,

Já é complicado conseguir e manter uma dezena de praticantes numa classe, com triagem pelo meio, cada classe teria dois ou três. Não sei como se faria tal triagem.

Prefiro outro desafio: motivor, abrir portas e manter aqueles que à partida seriam candidatos a ser rejeitados em tal triação.
Resposta de António Galrinho em: 31-10-2006
que raio é uma Arte Marcial afinal?
não podemos voltar sempre a esta questão cada vez que é colocada nova questão.

além disso, existe alguma tradução para BuDo? a única que existe é "arte marcial" e mesmo que esteja mal feita, é a que temos. Se o Aikido é BuDo, o melhor que podemos dizer é que é uma arte marcial. Se as outras (Karate-Do, JuDo, KyuDo, e por aí fora) também são BuDo, e não hesitamos em chamar-lhes artes marcias, porquê a distinção?

Se o fundador considerou o Aikido parte do Budo, bem como outras tantas artes do BuDo, porque não havemos nós de o fazer.
Resposta de Miguel Tiago em: 30-10-2006
Mas é óbvio que não existe nenhum instrumento que perscrute minuciosamente a mente humana ao ponto de conseguir determinar o seu carácter rigorosamente. Mas pelo menos devem existir linhas orientadoras para que se faça alguma triagem, nem que seja grosseira; na pior das hipóteses, mesmo uma rede de malha grande sempre apanha qualquer coisa...

Não nos devemos preocupar com o perfil de cada um para o exercício das tarefas? Não é isso que fazem com os vossos alunos e futuros instrutores?

Não me digam que, se nitidamente vos aparece alguém no dojo, com comportamentos desviantes, que não fazem triagem; ou esperam que se “o professor se mostre tal como é” já é suficiente?

Também consideram que uma arma nas mãos de um cidadão caçador é o mesmo que nas mãos de um sniper dos Rangers? Analogamente não se aplicará o mesmo raciocínio entre quem sabe ou não sabe técnicas de taijutsu?
Resposta de Marco Ferreira em: 30-10-2006
Marco:

dizes que eu questiono "os métodos toscos que utilizam para escrutinar essa qualidade..."; na verdade o que eu questiono é mais que a gente se preocupe com isso...

Mas já que insistes, conto uma história que ontem ouvi, da boca de um magistrado, acerca das avaliações...

Ele contou a história de um indivíduo que era um excelente aluno de direito que se candidatou ao centro de estudos judiciários, com as melhores notas, e que fez os três anos do curso com as melhores notas também, e que foi considerado o melhor da turma. etc... e tal. Tudo com avaliações de todo o tipo, perfil psicológico e mais não sei o quê...

Todos os professores lhe anteviam um grande futuro como juiz... Assim foi até ser colocado numa comarca... Onde se tornou evidente aquilo que passara ao lado dos seus professores...
é que ele era louco, de papel passado, psiquiatricamente atestado... e a sua carreira acabou ali...

(também não sei porquê, que a dirença entre os sãos e os loucos...).
Resposta de Eduardo Tavares em: 30-10-2006
Exactamente !!!
Resposta de Miguel Sendim em: 30-10-2006
Vi. Que arte marcial pratica ele?
Resposta de António Galrinho em: 29-10-2006
António,

Esses jornais são profundamente educativos para quem lida com questões de segurança e ordem pública !!!

A talhe de foice, alguém viu a pequena reportagem no telejornal SIC de hoje, sobre o "Snipper de Bagdad" ?
Resposta de Miguel Sendim em: 29-10-2006
Os jornais que o Miguel lê! Pensei que fosse uma pessoa mais culta!
Resposta de António Galrinho em: 29-10-2006
O que o Eduardo e o AGalrinho costumam escrever (dando de barato que sabem escrever) não faz habitualmente sentido nenhum, mas, honestamente, desta vez dou-lhes razão: a questão da triagem-pelo-carácter não tem lá grande relevância.

Os alunos ficam quando e enquanto se revêm no carácter do professor e no modelo de vida que ele representa. Portanto, que o professor se mostre tal como é já é triagem bastante.

A questão do ensino de técnicas letais (ou do aspecto letal das técnicas) é igualmente uma falsa questão - basta ler "O Crime", ou o "Correio da Manhã" para perceber que em matéria de letalidade os habitantes do nosso país não precisam de frequentar escolas de artes marciais para fazerem mal à brava uns aos outros, com uma criatividade que certamente confundiria o próprio O-Sensei.
Resposta de Miguel Sendim em: 29-10-2006
Se uma pessoa se magoa numa técnica mal feita isso é um acidente. Não é resultado da aplicação da técnica em si.

No Aikido, os praticantes aprendem a cair, como forma de finalizar as técnicas (parte delas) sem se magoarem. Do mesmo modo, também aprendemos a projectar de maneira a que o parceiro possa cair em segurança.

Claro está que a prática também poderia ser feita de modo a que o praticante caísse mal, se magoasse e partisse aos bocados. Mas de facto não é assim, e ainda bem senão não teríamos com quem praticar nem nós próprios seríamos ainda praticantes.

Será que é por estas razões que o Aikido não é uma arte marcial, ou será que é precisamente por elas que o é?

(Lembrando o que disse o meste Saotome, dá que pensar)
Resposta de António Galrinho em: 29-10-2006
Vade retro, Satanazes! Quereis fazer-me cair na tentação da ironia mordaz, mas desta vez resistirei! A muito custo, mas resistirei! :-P

Irmão Miguel, os registos não são resultado de nenhum morticínio ou penitência, mas tão somente as memórias neurónicas das práticas ao longo do tempo. Relato um pequeno episódio de um registo desse tipo: no verão passado fui convidado a participar num estágio de Shorinji Kempo (arte marcial japonesa). Um dos parceiros de prática era um agente da GNR que estava a iniciar; no intervalo, verificando que eu não era um caloiro nas andanças, encetou conversa sobre pormenores das técnicas. Uma das questões que colocou era que não entendia como era possível levantar um homem apenas com o movimento de ancas, pelo que me pediu para exemplificar com ele. Cometendo o pecado da presunção, em vez de o direccionar para um dos mestres presentes no estágio, lá acedi a exemplificar com um ippon seonage. Como o indivíduo ainda não dominava a técnica da queda, ficou estatelado no tapete a bufar, agarrado ás costelas; nada aconteceu, porque em parte também amorteci a queda, mas ficou demonstrado como um nage waza poderá lesionar seriamente.
Quem tem bom carácter não colocará intencionalidade maléfica naquilo que ensina; mas isso não quer dizer que o que ensina não contenha em si perigosidade.
Por isso, caro Eduardo, seria suposto de possuir bom carácter para quem é policia, porque foi sujeito a selecção. O que questionas são os métodos toscos que utilizam para escrutinar essa qualidade...

Mas o irmão Miguel levantou a ponta do véu: a revelação dos pormenores da arte ficam sempre ao abrigo da arbitrariedade do mestre, podendo usar como critério o carácter, mas ficando sempre a pairar aquela dúvida cartesiana do “será que os mestres ensinam tudo o que sabem?...”
Resposta de Marco Ferreira em: 28-10-2006
Querido irmão-no-Budo Marco,
Se o teu corpo tem registos da letalidade desses conjuntos de técnicas que nomeaste, queres com isso dizer que já morreste várias vezes ???
Resposta de Miguel Sendim em: 28-10-2006
Nage Waza pode ser letal? É provável.

O meu não sei se será, porque não quero sequer saber que possa ser, nem estou interessado numa prática que passe aí perto.
Resposta de António Galrinho em: 28-10-2006
Muito boas tardes, queridos irmãos-no-Budo,

Como sabem, sou mestre de Aikido numa escola do interior e gostava de partilhar convosco que já quis implementar um sistema de triagem do carácter dos candidatos a alunos, mas não resultou porque me cortaram os pneus do carro e deram um enxugo de porrada na discoteca local, de modos que por agora aceito toda a gente, enquanto a federação não legisla sobre o assunto e a dona do ginásio não contrata seguranças.

Em termos de treino, contudo, faço uma diferenciação severa, uma vez que defendo os métodos tradicionais de ensino: ao pessoal que acho que é sincero e bem-formado vou desvendando os segredos da arte ao longo dos anos; ao pessoal que acho que tem um carácter duvidoso mostro logo tudo o que há de piorio, que é para deixarem o meu carro em paz e não ter problemas na discoteca.

:-ppp
Resposta de Miguel Sendim em: 28-10-2006
Eduardo, estás a dizer k não tenho bom caracter???
É por ser Polícia ou Aikidoca?
Vê lá se atinas :-)
Beijo
Resposta de Ofélia da Conceição Miranda Mascarenhas em: 28-10-2006
E então Marco, se se entrar para a Polícia fica-se suspeito de ter bom carácter..??

A Ofélia que me desculpe, mas não me parece...

E para mais, fica-se também simultaneamente suspeito de não o ter, visto que se tem que passar a mão não sei aonde...

Quanto aos energúmenos que por aí pupulam, são aqueles cujos mestres eram da tal cepa... Para além disso, no que respeita ao Aikido... Não estou a ver o porteiro da discoteca a dizer:

Ou atinas já, ou levas um nikio pelos pulsos abaixo...

Quanto àquilo que fazemos aos de espírito mais violento, é simples, são imediatamente castrados... Não há nada como um eunuco para praticar Aikido. Nós na AAS somos quase todos, menos as mulheres, e alguns que já eram calmos à nascença.

Às vezes também os convidamos a sair do tapete, mas não gostamos de ser assim desagradáveis... É só para casos limite.
Resposta de Eduardo Tavares em: 28-10-2006
Pois é, Eduardo, para a Policia é preciso isso tudo e talvez ainda amaciar o pêlo ao comandante da escola. Portanto, por algum motivo há-de ser. O mesmo aconteceria com o excelso mestre, se tivesse sido sujeito a selecção.

Calmex, porque o Aikido tem marcialidade. Nage waza não pode ser letal? Ou shime waza? Ou Kansetsu waza? Ou atemi waza? O meu corpo tem registos que refutam a afirmação…

A intenção de ensinar pode ser pacifica mas os movimentos aprendidos podem ser lesivos, quando mal utilizados.

O argumento de que a arte tem um filtro intrínseco que desincentiva os de mau carácter, parece mais um mito urbano que um facto. Em algumas artes de combate é vê-los em acção e assíduos; pululam pelas portas das discotecas…

A questão é: se durante a frequência dos treinos detectam alguém com um espírito menos aikidoca, que atitude tomam?
Resposta de Marco Ferreira em: 28-10-2006
Então mas........ uma vez que o Aikido não é uma arte marcial... esta questão não faz sentido.

Ou melhor, eu acho que, enquanto professor, não me vou preocupar minimamente porque estou consciente de que não estou a ensinar coisas poderosas nem letais.

O Aikido contribui para que as pessoas sejam... (mais) qualquer coisa, que depende de cada uma. E como eu não sou bruxo.........
Resposta de António Galrinho em: 26-10-2006
Respondendo à tua questão...
As pessoas de bom carácter mal se aguentam, quanto mais as que não prestam...

Acho que se perguntares a professores de artes marciais, a maior parte te dirá que tipos de mau carácter não costumam passar da segunda aula...

Se eles se sentirem bem, provavelmente é porque o professor é da mesma cepa...
Resposta de Eduardo Tavares em: 26-10-2006
Absolutamente de acordo, Marco. Entrar num Dojo, só com atestado médico legal, com rádio-torax, prova de esforço, e, na verdade já nos esquecíamos, um atestado psiquiátrico, uma bula papal e um carimbo do presidente da junta de freguesia em qualquer lugar à escolha. E já agora, quem é que afiança o magnânimo carácter do excelso Mestre?
Resposta de Eduardo Tavares em: 26-10-2006